janeiro 16, 2009

Monumentos de sangue



Por PC Mapengo


Meu pobre imperador, a geração que vem buscará a nossa grandeza em monumentos de pedra, sem perceber que nós, antepassados, escrevemos a nossa história em monumentos de sangue. Os nossos descendentes rir-se-ão das nossas crenças, das nossas rezas, comerão peixe e todos os insectos marinhos, sem se importarem com a nossa realeza, tudo muda, ah, meu gordo imperador.


Oscilação do tempo

Se no Vento de Apocalipse Paulina Chiziane consegue se conter no tempo, o mesmo não se pode dizer em relação As Andorinhas, o seu mais recente livro que sai com o selo da Indico. Ela descarta a noção do tempo, mesmo que nos obrigue a fazer uma viagem ao passado, muito encontramos que insistentemente nos obriga a voltar. Aliás, diria a definição mais simplória de história: estudar o passado para compreender o presente e perspectivar o futuro.


Ela coloca as balizas: o tempo do imperador gordo que pode ser Ngungunhane. Nos faz voltar ao passado onde os reis são senhores absolutos, donos da terra e do mar, da vida e da morte, do prazer e do fel:

“Quando aqui cheguei a terra era macho. Domestiquei-a. Tornei-a fêmea, é toda minha, faço o que quero”, diz o imperador. É assim que demonstra o seu poder que nem as andorinhas devem cantar quando ele estiver a descansar.


Mas é do tempo que falávamos ainda. Mesmo colocando o passado, nos obrigando a estar nele, Paulina Chiziane não consegue também nos empurrar para hoje, como escreveu Amâncio Miguel no prefácio do livro:

As Andorinhas é um livro que sai numa altura em que, acentuadamente, se fala da globalização.”


Lucidez


Mesmo sendo um conceito que domina os finais do século XX, a globalização pode se resgatar do passado, pode ser buscado das explorações e se olhar para o que ele transmitiu-nos. Amâncio diz que alguns se referem a ela como “um barco abarrotado de referências do além (…), que leiloa, sem quaisquer regras, soluções para uma infinita gama de problemas.” No entanto, para Miguel, no dito barco falta uma consultora de lucidez que é trazida por Paulina Chiziane.


Mais do que lucidez, a questão de fronteiras de tempo e espaço geográfico a que nos referimos é que faz deste livro um espaço de encontros entre nós e os nossos antepassados para debatermos os nossos fracassos deles herdados e a eles oferecidos. No entanto, o grave é que nesse mês mesmo espaço tememos o julgamento que as próximas gerações farão de nós.


Se voltarmos ao principio:


Meu pobre imperador, a geração que vem buscará a nossa grandeza em monumentos de pedra, sem perceber que nós, antepassados, escrevemos a nossa história em monumentos de sangue.


PODER


Ao olharmos para o tempo e a fronteira geográfica concluímos que ainda não escrevemos a nossa grandeza em monumentos de pedra mas sim de sangue. O livro surgiu de uma conversa entre Paulina Chiziane e Helena Zefanias Lowe, em casa desta em Luando, curiosamente um território que só agora parou de escrever a sua grandeza em monumentos de sangue. Se apararmos do nosso lado do muro e espreitarmos a casa do vizinho veremos como Robert Mugab continua a escrever a sua grandeza em monumentos de sangue; se olharmos para médio oriente veremos como ainda se escrevem as grandezas em monumentos de sangue. E ninguém nos garante que não se irão rir das nossas crenças.


Mas estaríamos a incorrer em erro se definirmos este como um livro de violação de fronteira dos tempos, mas podemos arriscar o definindo como um livro que questiona a ideia do poder:

Poder. Invisível armadura que eleva o espírito humano aos píncaros do absurdo. Pelo poder os guerreiros sangram a terra e castram a virilidade dos homens.


Se na sua narração Paulina Chiziane olha o poder como um meio caminho para o absurdo, que proíbe aos outros, mais lúcidos de alertar que o rei vai nu, para Amâncio Miguel ele pode ser uma arma que nos tira completamente a lucidez.


CONTADORA DE HISTÓRIAS

As Andorinhas também repete uma negação das outras obras. Voltamos ainda a fronteira, desta vez para romance e contos. Talvez uma tenha dentro de si a outra mas este livro vem repetir a ideia de que ela é uma contadora de história. Não se é preciso chegar ao meio do livro para se descobrir essa faceta que já expôs em outras obras. Aliás, a sua estreia em Balada de Amor ao Vento ela se posiciona dessa maneira que lembra as velhas noites de fogueira de nkaringana wa nkaringana, que eram na verdade as nossas velhas novelas. Viria recuperar em outros trabalhos como Sétimo Juramento.


“A escritora chope, filha de um alfaiate de esquina e de uma camponesa dona de casa, usa o seu poder de contadora de história…” escreveu Amâncio Miguel no prefácio do livro.

Falando do prefácio, geralmente este é usado para nos preparar para a leitura do livro. São os preliminares. Nos preparam o espírito para descobrirmos uma grande obra e que por vezes não passa de uma decepção. N’As Andorinha, Paulina talvez não precisasse de essa leitura clássica mas precisava de quem expusesse a sua história com alguma classe e Amâncio o vem fazer com toda:


Este livro narra, sucessivamente, a rivalidade de dois povos amigos; a rota invejável de um unificador que não viveu para celebrar o seu sonho; a glória de uma águia que foi ao encontro do sol e elevou como ninguém a bandeira da sua nação. Pelo meio estão algumas notas da resistência à dominação colonial, da luta pela independência de Moçambique e a procura da gestão da liberdade.

- As grandes mentiras incubam grandes verdades.

-E as andorinhas, general?

- Se queres conhecer a liberdade, segue o rasto das andorinhas…

1 comentário:

MESU MA JIKUKA disse...

Cda, se não for muito trabalhoso gostaria de ter, para fazer uma comparação, ideias sobre os rituais de circuncisão, pesca e caça tradicionais, bem como exercício do direito consuetudinário, em Moza... São questões que despertaram em mim algum interesse e tenho feito pesquisas de campo.